Por que o ESG se tornou prioridade estratégica nas empresas
Nos últimos cinco anos, a agenda ESG (Environmental, Social and Governance) migrou definitivamente das margens dos relatórios corporativos para o centro das decisões estratégicas. Empresas listadas na B3, multinacionais com operações no Brasil e até organizações do setor público passaram a incorporar metas ambientais, sociais e de governança como critérios indispensáveis para acesso a crédito, atração de investidores e manutenção da reputação institucional.
Dados da pesquisa Global ESG Survey 2024, realizada pela PwC com mais de 2.500 investidores institucionais em 73 países, indicam que 79% deles consideram os critérios ESG um fator decisivo na alocação de capital. No Brasil, o mercado de finanças sustentáveis movimentou R$ 180 bilhões em 2023, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), e a projeção é de crescimento contínuo até 2030.
Esse cenário cria uma demanda concreta e urgente por profissionais capazes de traduzir princípios ESG em estratégias mensuráveis, relatórios auditáveis e práticas de negócio sustentáveis. Mais do que um nicho, trata-se de uma nova camada de competência exigida em praticamente todas as áreas funcionais das organizações modernas.
O perfil do profissional de ESG em 2026
O profissional de ESG de 2026 não é um especialista isolado num departamento de sustentabilidade. Ele é um agente transversal, capaz de dialogar com finanças, jurídico, operações, marketing e recursos humanos simultaneamente. As empresas buscam pessoas que combinem conhecimento técnico sólido com visão sistêmica e habilidade de influenciar culturas organizacionais.
Entre as características mais valorizadas pelo mercado, destacam-se:
- Domínio dos principais frameworks de reporte: GRI (Global Reporting Initiative), SASB (Sustainability Accounting Standards Board), TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures) e o recém-publicado IFRS S1 e S2, emitidos pelo ISSB (International Sustainability Standards Board), que devem ser amplamente adotados no Brasil a partir de 2026.
- Capacidade analítica e uso de dados: mensurar emissões de carbono (Escopos 1, 2 e 3), calcular índices de diversidade e inclusão, monitorar indicadores de governança e construir dashboards de desempenho ESG são tarefas que exigem fluência em dados.
- Conhecimento regulatório atualizado: a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) publicou a Resolução CVM nº 59/2022, que tornou obrigatória a divulgação de informações climáticas por companhias abertas. Entender o arcabouço legal brasileiro e internacional é diferencial competitivo.
- Habilidades de comunicação e engajamento: construir diálogo com stakeholders, conduzir processos de materialidade e elaborar relatórios de sustentabilidade acessíveis ao público leigo são competências cada vez mais exigidas.
- Visão financeira integrada: compreender como os riscos ESG afetam o valuation de empresas, o custo de capital e o acesso a instrumentos como green bonds e CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) sustentáveis é essencial para atuar junto à alta liderança.
Áreas de atuação com maior demanda
A pluralidade de aplicações do ESG gera oportunidades em setores e funções bastante distintos. Profissionais com formação sólida na área podem atuar em consultoria estratégica, departamentos de sustentabilidade, compliance, gestão de investimentos, agronegócio, infraestrutura, tecnologia e varejo, entre outros.
Gestão e Estratégia Corporativa
Gerentes e diretores de ESG são hoje cargos presentes no organograma das 500 maiores empresas do Brasil. A função envolve definir metas de longo prazo alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, estruturar programas de compensação de carbono e coordenar a publicação do relatório anual de sustentabilidade. De acordo com levantamento da consultoria PageGroup publicado em 2024, a remuneração de gerentes de ESG no Brasil varia entre R$ 15.000 e R$ 25.000 mensais, dependendo do porte da organização.
Finanças Sustentáveis e Mercado de Capitais
Bancos, gestoras de fundos e fintechs buscam profissionais que combinem formação financeira com expertise em ESG para estruturar produtos como green bonds, sustainability-linked loans e fundos de impacto. O Brasil é o maior emissor de títulos verdes da América Latina, com volume superior a US$ 20 bilhões emitidos até 2023, segundo dados do Climate Bonds Initiative.
Consultoria e Auditoria ESG
As Big Four — Deloitte, PwC, KPMG e EY — expandiram significativamente suas práticas de sustentabilidade no Brasil. A demanda por consultores capazes de conduzir due diligences ESG em processos de M&A, estruturar políticas antilavagem com critérios socioambientais e preparar empresas para a adoção dos padrões IFRS de sustentabilidade cresceu mais de 40% entre 2022 e 2024, segundo relatório interno divulgado pela KPMG.
Agronegócio e Cadeias de Valor
Com o Brasil sob crescente escrutínio internacional quanto ao desmatamento e à rastreabilidade de commodities, o setor agro tornou-se um dos maiores empregadores de especialistas em ESG. A Lei de Devida Diligência da União Europeia (EUDR), que entrará em vigor para grandes operadores ainda em 2025, exige que exportadores brasileiros de soja, carne, café e outros produtos demonstrem ausência de desmatamento em suas cadeias de fornecimento — criando uma demanda imediata por gestores de risco socioambiental.
Formação e qualificação: o caminho para se destacar
A formação em ESG no Brasil ainda é predominantemente realizada por meio de pós-graduações, MBAs com ênfase em sustentabilidade e certificações internacionais. Não existe, até o momento, uma graduação específica em ESG amplamente consolidada no país, o que torna a pós-graduação o principal caminho de especialização para profissionais já inseridos no mercado.
Cursos de pós-graduação em Gestão de Sustentabilidade, ESG e Negócios, Finanças Sustentáveis e Direito Ambiental Corporativo têm registrado crescimento expressivo nas matrículas. A modalidade EAD permite que profissionais de diferentes regiões do Brasil acessem formações de qualidade sem abrir mão da rotina de trabalho.
Entre as certificações internacionais mais reconhecidas pelo mercado estão:
- CFA ESG Certificate — emitido pelo CFA Institute, voltado para profissionais de investimento;
- GRI Certified Training — para quem deseja dominar os padrões GRI de reporte;
- SASB FSA Credential — focado em análise de materialidade financeira setorial;
- CDP Accredited Training — para profissionais que trabalham com divulgação climática corporativa.
Além das certificações formais, a participação em grupos de trabalho como o do Pacto Global da ONU no Brasil, redes como a ABRAPP (para fundos de pensão) e fóruns como o ESG Summit Brasil contribuem para a construção de uma rede profissional qualificada e atualizada.
Soft skills que fazem a diferença
O conhecimento técnico, embora indispensável, não é suficiente para quem deseja se destacar na área de ESG. As habilidades comportamentais — as chamadas soft skills — têm peso igual ou superior nas decisões de contratação para posições seniores.
- Pensamento sistêmico: compreender como as partes se interconectam dentro de cadeias produtivas complexas e ecossistemas corporativos é fundamental para propor soluções ESG efetivas e não apenas cosméticas.
- Resiliência e gestão de incerteza: o campo do ESG é dinâmico, com regulamentações em constante evolução e pressões externas imprevisíveis. Profissionais que se adaptam rapidamente têm vantagem competitiva.
- Capacidade de influência sem autoridade: muitas vezes, o gestor de ESG precisa convencer áreas que não se reportam a ele a adotarem práticas mais sustentáveis. Isso exige habilidade política, argumentação baseada em dados e escuta ativa.
- Comunicação intercultural: trabalhar com fornecedores globais, investidores estrangeiros e frameworks internacionais exige sensibilidade cultural e, frequentemente, fluência em inglês.
Tendências que moldarão a carreira em ESG até 2030
Olhar para além de 2026 é essencial para quem está construindo uma carreira sólida em ESG. Algumas tendências já estão claras e devem intensificar a demanda por profissionais qualificados nos próximos anos.
A taxonomia verde brasileira, em desenvolvimento pelo Ministério da Fazenda em parceria com o Banco Central, deve estabelecer critérios nacionais para classificar atividades econômicas como sustentáveis — criando um novo mercado de assessoria e compliance. A inteligência artificial aplicada ao ESG também ganhará espaço, automatizando coleta de dados e análise de riscos climáticos, mas ampliando a necessidade de profissionais que saibam interpretar e governar esses sistemas. Por fim, a biodiversidade emerge como o próximo grande tema após as mudanças climáticas, impulsionada pelo framework global do Kunming-Montreal, que estabelece metas de proteção de 30% do planeta até 2030.
Perguntas Frequentes
É necessário ter formação em ciências ambientais para trabalhar com ESG?
Não. A área de ESG é genuinamente multidisciplinar. Profissionais de Administração, Direito, Economia, Engenharia, Jornalismo, Psicologia Organizacional e diversas outras graduações atuam com sucesso no setor. O que diferencia é a capacidade de combinar a bagagem da formação original com o conhecimento específico em sustentabilidade, adquirido por meio de especializações e certificações.
Qual é a faixa salarial de um profissional de ESG no Brasil?
Segundo dados do PageGroup e da consultoria Michael Page para 2024, analistas de ESG recebem entre R$ 6.000 e R$ 10.000 mensais; gerentes, entre R$ 15.000 e R$ 25.000; e diretores de sustentabilidade, acima de R$ 30.000, podendo ultrapassar R$ 50.000 em grandes corporações. Certificações internacionais e domínio de inglês elevam consideravelmente a remuneração.
Pós-graduação EAD em ESG tem o mesmo reconhecimento que o presencial?
Sim, desde que a instituição seja credenciada pelo MEC. O mercado brasileiro já reconhece amplamente as formações EAD, especialmente quando acompanhadas de projetos práticos, estudos de caso reais e corpo docente com experiência de mercado. O formato online, inclusive, é valorizado por demonstrar disciplina e autonomia do profissional.
Como o ESG se relaciona com compliance e governança corporativa?
O "G" de Governance no ESG abrange estruturas de controle interno, gestão de riscos, transparência, combate à corrupção e proteção de dados. Profissionais de compliance encontram no ESG uma extensão natural de sua atuação, especialmente com a crescente integração entre a Lei Anticorrupção (Lei nº 12.846/2013), a LGPD e os padrões internacionais de boa governança exigidos por investidores.
Quais setores contratam mais profissionais de ESG no Brasil hoje?
Os setores com maior demanda atualmente são: serviços financeiros (bancos, gestoras e seguradoras), agronegócio e alimentos, mineração e energia, consultoria estratégica e auditoria, varejo de grande porte e empresas de infraestrutura. A tendência é que essa demanda se expanda para médias empresas à medida que as exigências regulatórias se tornem mais abrangentes nos próximos anos.